Milton Moura's blog

Ler, ler, ler, ler, ler, ler e ler

Por estes ouve-se Tool - Aenema. Bom álbum.

Pareço não-sei-o-quê com um dicionário de português aqui ao lado, à mão, para confirmar acentos e outras coisas. Agora que vou escrever algo regularmente, não quero fazer figura de urso.

Devia estar a programar um web site em ASP.NET ou a escrever o meu currículo, mas eis que me apetece escrever algo sobre exactamente aquilo que você (sim, tu aí) está a fazer neste preciso momento -- ler.


Estava a comer um midnight snack à pouco, quando me lembrei do artigo da Clara Ferreira Alves, inserido na revista Única do jornal Expresso do dia 19 de Julho, 2003.

Ora nesse referido artigo, de titulo O falso livro de férias, a Dona Clara faz notar (de forma incisiva) a falta que faz "um livro" ao comum mortal e á sua respectiva massa cinzenta. A frase que mais me fez acenar com a cabeça, rir e concordar simultâneamente foi a seguinte:

"Os portugueses não percebem que enquanto não aprenderem a ler, aprenderem português e matemática, aprenderem a pensar e abstrair, nunca passarão disto, da crise, da baixa produtividade, do subsídio, da causa (nota: imagino que isto seja um erro. cauda faz mais sentido) da Europa, da cepa torta".

Embora não partilhe da opinião que Portugal é um país coitadito, sem cultura e que só revistas cor-de-rosa, o facto é que muita pouca gente lê por prazer e concordo plenamente que esse é um factor de extrema importância no desenvolvimente intelectual de qualquer pessoa. Sejam romances, banda desenhada, enciclopédias, biografias, etc, o que é importante é descobrir algum assunto que nos interesse e simplesmente ler.

Eu tenho a sorte de ter crescido com um avô e uma tia que tinham livros interessantes na prateleira - lembro-me quando era pequeno, de passar serões em casa deles e folhear os livros da Reader's Digest, em particular aqueles sobre a natureza ou sobre o espaço, que além de puxarem pela minha elástica imaginação, davam-me a conhecer espécies diferentes de animais, planetas distantes e um conjunto de informação que só fermentava e desenvolvia o meu cérebro.

Nessa mesma altura, comecei a ler livros de bolso da Europa-América, mais precisamente livros de filmes que via no cinema, e fui por aí a fora: Os Cinco, Júlio Verne, Dungeons & Dragons, etc. Nos últimos anos, tenho-me virado mais para os livros técnicos - a universidade e o bichinho assim o exige - mas neste preciso momento estou a ler Asimov, Tolkien e o Liderar do Rudy Giulliani.

Posso afirmar que sou uma pessoa mais culta e mais inteligente graças à leitura. Não tenho qualquer dúvida sobre isso.

A questão agora é mentalizar as outras pessoas acerca disso.

Uma situação curiosa aconteceu precisamente quando estava a ler o artigo acima mencionado, há duas semanas atrás: alugamos uma casa na Ribeira Quente por uma noite, com o intuito de ir ver o concerto dos GNR ao Nordeste, por ocasião das festas do concelho. Chegamos, arrumamos as coisas nos quartos e na cozinha e em menos de uma hora já não tinhamos muito que fazer. Enquanto os outros se preparavam para irmos à praia, sentei-me a folhear a Única e o artigo da Clara foi dos primeiros a chamar-me a atenção. Estava precisamente a ler a frase que transcrevi acima quando a minha namorada repara que estou a ler e sai-se com esta frase:

- Ainda não estamos aqui à uma hora e tu já estás a ler!?

Ri-me, deliciado com o timing da conversa e disse-lhe:

- Olha, é exactamente sobre isso que estou a ler... ler!

E li-lhe a passagem. Ela ouviu, olhou atentamente para mim e não deu resposta - ela, que tem algumas falhas no português e imensas dificuldades na matemática. O outro casal que nos acompanhava ouviu a conversa e o meu amigo Jorge retorquiu com algo do tipo:

- Isso é tanga! Desde quando é preciso ler para trabalhar bem e saber pensar? Para que é que preciso estar a ler as ideias dos outros? É como aqueles universitários que saem do curso sem saber pensar, só decoram os textos dos livros e fizem trabalhos que são autènticas transcrições!

Há que inserir aqui um pouco o meu amigo Jorge dentro do contexto. O Jorge é um pouco mais velho do que eu, não tem o 12º ano completo (o raio da Matemática e da Física) e trabalha à cerca de 3/4 anos numa empresa bastante reconhecida regional e nacionalmente. O Jorge actualmente estuda à noite e foi meu colega durante o ensino secundário, pois ambos escolhemos a área técnica de informática. O Jorge não acertou na sua escolha, pois como ele tem vindo a descobrir, tem muito mais jeito para as àreas da Filosofia e História. O Jorge não lê por prazer. Lê os livros que precisa para as aulas e obviamente tudo o que esteja relacionado com o seu emprego.

Acontece que eu acho que o Jorge por vezes sente-se um pouco mal por não ter frequentado a universidade e sente-se melindrado quando eu ocasionalmente falo em assuntos assim mais... intelectuais... e de certa forma sentiu-se atingido com o que eu li em voz alta. Faltam-me quatro cadeiras para acabar a minha licenciatura. Eu podia ser muito bem um dos "universitários que saem do curso sem saber pensar, só decoram os textos dos livros e fizem trabalhos que são autènticas transcrições!".

Será que ele tem razão?

Ninguém pode negar que existe muita gente que se sai bem na vida sem ler, sem ter um curso superior, sem ser uma pessoa culta e pseudo-intelectual. Basta ter personalidade, instinto e força de vontade. Eu acredito que daqui a 10-15 anos, o Jorge esteja perfeitamente bem na vida e se sinta feliz. Acredito também que nessa mesma altura eu esteja desempregado, com dificuldades e miserável. O inverso também é possível. Ou mesmo nada parecido com estas situações. O que eu acredito é que daqui a 10-15 anos eu vou continuar a desenvolver as minhas opiniões e a puxar pela minha imaginação ao ler um livro e sentir-me bem com isso.

Como argumentei na altura, uma pessoa só aumenta o seu potencial ao ler, ao absorver informação. Seja, por exemplo, um artigo ou livro relacionado com algum assunto pertinente ao trabalho que é executado no dia-a-dia, no posto de trabalho. Não é importante crescer e melhorar o desempenho das nossas funções numa empresa? O nosso chefe vai penalizar -nos por isso? Claro que não! É uma mais valia simples e fácil de obter. Outro exemplo pode ser a leitura de artigos de opinião. Como é que uma pessoa pode argumentar ou estabelecer a sua própria opinião sobre determinado assunto sem estar devidamente informada? Das duas uma, ou argumenta com suposições suas ou simplesmente não tem nada a dizer sobre esse assunto. É rodeando-nos de informação, de preferência correcta, que nos podemos colocar firmemente sobre qualquer coisa que nos interesse.

É certo que existe informação na televisão, não é preciso recorrer a um jornal ou livro para saber da actualidade ou aprender história, mas nunca está lá toda a informação. O que aparece nos noticiários ou nos documentários são sempre resumos extremamente sucintos do que se passa ou do que se passou!

Claro que nada disto é verdadeiramente importante para quem simplesmente não se interessa. Mas a falta de interesse é sinónimo de letargia, de uma incapacidade de reconhecer que não vivemos isolados uns dos outros, de que vivemos em sociedade e que realmente temos um papel importante a desempenhar no mundo, por mais pequeno que ele nos possa parecer.


Outro excelente exemplo é a minha linda companheira. Quantas vezes já não fomos a uma tabacaria comprar algo para ler numa noite em que não há nada de muito interessante para fazer? Imensas. Ela compra a Nova Gente e eu compro a Time. Ela lê a Nova Gente enquanto eu folheio a Time. Ela acaba de ler a Nova Gente, passa-me a revista e é a minha vez de ver a Nova Gente. Ela não pega na Time.

Isto quer dizer o quê? Fica ao vosso critério :)

O certo é que lhe tenho tentado incutir o gosto de ler e lá vai ela lendo os livros do Paulo Coelho, que só lhe fazem bem, espero eu. (Nunca li Paulo Coelho...)

Só falta agora convencer o meu irmão de 12 anos, que detesta ler. Nem as revistas de jogos o raio do rapaz se dá ao trabalho de ler - compra a revista, mete o CD no computador, olha para as imagens dos jogos e lixo com ela. Só espero que ganhe juízo antes que seja tarde demais.

Para acabar por hoje, dou uma sugestão de leitura que me agradou imenso: Edgar Allan Poe. Escritor norte-americano do século XIX, escreveu uma série de contos e poemas simplesmente fascinantes, alguns deveras macabros e sombrios, assentando na superstição e no imaginário negro da época. Se não encontrarem uma tradução portuguesa nas livrarias, podem sempre recorrer ao Project Gutemberg que possui uma grande quantidade dos textos deste autor, divididas por volumes ou em separado.

Aconselho especialmente o The Pit and the Pendulum e o Descent into the Maelstrom.

Está a ficar cedo. Vou dormir.

second post

Muito bem, assim está melhor.

Após editar manualmente o HTML, parece que o título já está legível.
We´re in business, as they say.

Bem vindos ao meu web log, o segundo escrito por alguém residente nos Açores, de acordo com o nosso amigo Daniel, do Filosofia & Bolachas, mais precisamente na cidade de Ponta Delgada.

Espero entreter-me e entreter, se bem que esteja perfeitamente consciente que ninguém de bom nome irá dar-se ao trabalho de ler isto...

A ver vamos :)

first post

Bem, a primeira coisa que estou a achar extremamente irritante neste serviço de weblogging é o facto de os scripts de criação dos sites aparentemente não suportarem acentos! Que raio?!

Eu quero que isto se chame "Cá & Lá" e não "C?? & L??"!

Vamos lá ver se dou a volta a isto...

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